Aproveitando a "deixa" de Ferenczi, parece-me que uma das possibilidades para explicar o mal estar do qual muitos de nós padecem às segundas-feiras, está justamente na continuidade do mal estar dominical; se, ao final do domingo, nos damos conta de que estaremos, muito em breve, novamente envoltos na rotina semanal, conquanto isso possa aliviar algumas das pressões expostas por Ferenczi, e que geram o mal estar dominical, nos damos conta de que não aproveitamos adequadamente nosso período de descanso. Vale alertar de que estamos falando aqui de coisas que operam ao nível inconsciente, de modo que não pensamos: "puxa, não aproveitei o final de semana e agora tudo começa outra vez" com toda essa clareza; o sentimento associado a esse modo de operar é que é percebido por nós como mal estar.
Deste modo, às segundas-feiras, estamos novamente expostos e somos novamente lançados a nossas inúmeras atribuições do dia a dia, algumas delas não de todo agradáveis.
Adiciono a esse pensamento certas variáveis exógenas que apenas reforçam o sentimento que menciono acima. Tais variáveis dizem respeito ao imperativo social (e do consumo) do "aproveitar tudo o que o mundo nos oferece". Somos compelidos a "aproveitar".
Lembro-me de ter ouvido um comentário, certa vez, sobre como fulano não aproveitava "tudo o que São Paulo oferecia aos finais de semana". Também me lembro da réplica do outro, perguntando: "Mas, tudo o quê? Filas, trânsito, manobristas, flanelinhas, espera de horas por uma mesa num restaurante, pessoas falando alto no cinema...?!".
De fato, somos compelidos a "aproveitar" de uma forma que pode não ser exatamente aquela que desejamos. Daí, decorre outro sentimento de frustração, posto que não obtemos o prazer almejado com aquilo que realizamos.
Em resumo, muito do famoso mal estar de segunda-feira parece-me decorrer tanto do sentimento de não se ter usufruído adequadamente dos momentos de lazer, seja pelos fatores mencionados por Ferenczi, seja por se ter deixado levar por variáveis sócio-consumistas que não estão, embora possam apresentar-se com estando, adequadamente alinhadas ao nosso verdadeiro modo de vida.
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